XL Jornada Do CPMG

A Anatomia e Suas Vicissitudes

Uma breve introdução ao nosso tema: Retomo nossas primeiras discussões sobre a escolha da temática da XL Jornada do CPMG – A anatomia e suas vicissitudes, A anatomia e seus destinos ou ainda A anatomia e seus avatares ? Algo insistia em nossas conversas: uma frase dita uma única vez por Freud em seu artigo A dissolução do complexo de Édipo de 1924: A anatomia é o destino. Em franca associação chegamos, no início da década de 90, a uma Jornada do CPMG sobre a Sexualidade, recuperando um artigo da Marília Brandão, intitulado “Quando a diferença não faz questão”. Lembramos das entrevistas que realizamos com a Rogéria e a Roberta Close para aquele evento.
O que mudou nos dias de hoje no que diz respeito aos homens e as mulheres, a masculinidade e a feminilidade, as identificações e identidades sexuais? Que mundo habitamos? Miller, no texto “Intuições Milanesas” contrapõe a era disciplinar, onde a psicanálise foi formalizada, fundamentada no conceito de inconsciente, orientada pelo elemento unificante do Édipo (da castração e do recalcamento) e a sociedade globalizante dos dias atuais levando a uma comunicação em rede flexível, o poder se exercendo de forma capilar, com uma nova ordem se estabelecendo, com declínio dos ideais abrindo espaço para invenções fora da norma. No campo do sexual assistimos, nas últimas décadas, a uma explosão de gêneros, que situam desde os clássicos até aquilo que denominam de fluidez de gênero, cada um buscando encontrar uma forma de ser, de existir numa vida habitável. A pergunta insiste: É a anatomia o destino? Ou podemos perguntar: Quais são os destinos da anatomia? Considerando que a anatomia é o destino, a castração se encontra do lado do destino. Aprendemos com Hans em seu trabalho lógico: ou todos os seres têm um pênis ou se há aqueles que não têm é porque esse membro lhes foi cortado. No seminário 10 – A angústia – Lacan diz que se o destino tem relação com a anatomia, o destino se joga essencialmente no primeiro encontro necessário do significante com o corpo. (p. 196). Homem e mulher são assim assunto de linguagem. A linguagem intervém sobre a anatomia pelo encontro com o Outro, transformando a necessidade do vivente em demanda. É o impacto da palavra sobre um organismo (anatomia) que tece um corpo, uma unidade imaginária para o sujeito. Da anatomia que diz respeito a um corpo imaginário, podemos dizer o menino tem, a menina não tem o pênis, mas o sujeito só pode constatar isso por meio da imagem do outro semelhante, por diferença. Já quando a linguagem intervém, podemos dizer: Sou uma mulher, Sou um homem, o que nada mais é do que uma atribuição, e um atributo não pode dizer do ser do sujeito. Fato é que a teoria psicanalítica vai mais além do binário sexo e gênero afinal, o sexo biológico, com o qual se é dotado ao nascer deve ser subjetivado a partir de um complexo processo de identificação decorrente do complexo de castração e do complexo de Édipo. O gênero, enquanto, construção social deve ser encarnado, logo tal binarismo não explica completamente a sexualidade humana. Voltamos para o nosso outro significante, a anatomia. O termo anatomia provém do grego ἀνατομία, sendo que seu prefixo ἀνά designa “para cima” e a raiz τέμνειν [témnein], “cortar”. No seminário livro 10 – A Angústia, Lacan diz: “A castração do complexo de castração não é uma castração. Disso todo o mundo sabe, todo o mundo dúvida, mas, coisa curiosa, é algo que ninguém se detém. No entanto, tem bastante interesse” . Refere que a castração do complexo é: “nós vamos cortá-lo”, ou seja é a ameaça sobre o pênis, o órgão; enquanto a castração não é de maneira alguma equivalente a uma ameaça sobre o órgão. O que temos em comum no complexo de castração e na castração é a função do corte, um corte é convocado nas duas situações. Na página 259 do mesmo seminário, Lacan afirma: “Freud nos diz a anatomia é o destino. Vocês sabem que, em certos momentos, ergui-me contra essa formulação, pelo que ela pode ter de incompleto. Mas ela se torna verdadeira se atribuímos ao termo “anatomia” seu sentido estrito e, digamos, etimológico, que valoriza a anatomia, a função de corte” . Ao situar a raiz etimológica do termo anatomia, como corte, Lacan marca que a diferença sexual anatômica não se encontra no real, no biológico, ela é um recorte que resulta do encontro entre simbólico e real. A anatomia não é assim capaz de assegurar ao sujeito uma posição sexual. A determinação inconsciente da sexualidade, oriunda da inserção da estrutura da linguagem no organismo do vivente, deixa aberta a pergunta sobre a maneira com que cada sujeito lida com o amor? com o desejo? e com o gozo?. A anatomia é mesmo o destino? Como alguém chega a se identificar como homem ou mulher se não existe o ser homem ou o ser mulher. Em princípio o que existe é o ser de fala, ou o ser falante ou o parletre? Há uma falha central que é de estrutura e para a qual existem respostas coletivas que variam no decorrer da história e há respostas sintomáticas que são singulares a cada sujeito. Estão os analistas advertidos das mudanças discursivas a respeito da sexualidade? Podemos pensar atualmente na existência de uma abertura para novas formas de sexualidade? Falamos em sexualidade ou sexualidades, como nos interroga Dunker ?

Temática

Subtemas

Prevalência da ciência e do discurso do capital: Uma das abordagens propostas é a transexualidade como alvo de intervenções da ciência através da medicina, intervenções essas tanto cirúrgicas como hormonais, cada vez mais precoces, chegando até à infância. Têm sido reportadas situações em que a hipótese de transexualidade levantada nessa fase da vida, já leva pais a buscarem uma solução rápida e definitiva para suas crianças ou jovens, a fim de configurá-los logo no gênero que “aparentam” na sua própria avaliação, acreditando assim livrá-los de estigmas e preconceitos. Isso pode beirar à banalização e o que mais preocupa é o acolhimento e o aval da ciência a essa demanda de aspecto e intenções, muitas vezes questionáveis. Psicanalistas estudiosos do assunto têm levantado a discussão sobre a relação entre homofobia e transexualidade, o que sustentaria essa busca de transformação precoce da anatomia, como fuga àquilo que é tomado como um desvio da heterocisnormatividade. Enfim, tem gerado polêmicas essa participação crescente da ciência na dualidade entre sexo e gênero, principalmente pela sustentação comprometedora do Discurso do capital!
Gênero e transexualidade: Desde o surgimento da psicanálise com a descoberta da precocidade na determinação da estruturação psíquica, a sexualidade humana vem sendo estudada e investigada, ampliando o que a reduzia ao viés puramente biológico. Diante da constatação psicanalítica de que a anatomia não determina a escolha sexual do indivíduo, nos deparamos com questões de identidade, gênero, transexualidade. No campo da psicanálise estas questões não são analisadas apenas como uma produção cultural. É levado em conta a história do sujeito e suas relações com o significante fálico no processo de sua identificação imaginária, condição que dará o contorno de sua estruturação psíquica. Gênero: Uma construção cultural relacionada ao sexo que envolve desejo, gozo e fantasia. É da ordem da vivência, da fala, da linguagem, constituído à partir do Outro na ordenação simbólica e imaginária que a cultura atribui ao que considera como o masculino e o feminino. Transexualidade: Desarmonia entre sexo e gênero com a soberania do gênero. Denominado inicialmente por transexualismo numa visão biológica, médica, tratado com uso de hormônios e cirurgias corretivas do sexo. Hoje a transexualidade considera a subjetividade, o conflito psíquico do sujeito que não se vê pertencente ao seu sexo biológico. Gênero: consciência de ser homem ou ser mulher? Dificuldade de se determinar características absoluta do feminino e do masculino? Transexualidade: Orientação sexual? Hetero, homo, bi, assexual? E o transgênero?

Comissão da Jornada:

– Angela Lucena de Souza Pires
– Carlos Antonio Andrade Mello
– Eliana Monteiro de Moura Vergara
– Eliane Mussel da Silva
– Marilia Brandão Lemos de Morais
– Marilia Madureira Lucas de Oliveira /Suzanne Beaudette Drummond/ Túlcia Vasconcelos Barros Poggiali Coordenadora da Jornada

Submissão de trabalho

Hospital Mater Dei Rua Mato Grosso 1100 Santo Agostinho BH

Telefone:

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